Por Que Eu, Senhor? II

Posted by Cronicas de Bebado on 15:53 in , , , , , ,

Penso nessa manhã como foi estranha e indagadora. Minha vida parou naquele instante “magnífico”, quando minha mulher acabara de soltar um peido. O odor terrível adentrou minhas entranhas. Uma tosse abafada, misto com ojeriza, tomou conta de meu ser. Juro que pensei: a dieta dessa mulher só pode ser à base de carniça.
Procurei desesperadamente por uma intervenção divina, para poder sair do quarto sem liberar em cima da protagonista minha deliciosa janta de casamento, ou no mínimo sair vivo. Infelizmente, acho que fiz muita coisa da qual não me orgulho em vida, pois nem com autoflagelação fui ouvido em minhas suplicas. Procurei minha cueca que estava ao lado da cama para tampar o nariz e boca, sem sucesso, acabei apenas encontrando a roupa intima de minha mulher, que na questão ela tinha arrancado, pois o cheiro na mesma também estava hediondo. “Por que mamãe não fez um aborto quando teve tempo?” Pensava eu naquele momento. O cheiro da calcinha estava parecido com um sarapatel feito de mamute morto em beira de estrada. Comecei a berrar em plenos pulmões: “Meu Deus, me deixa sem olfato, mas tira esse cheiro daqui”. Novamente minhas rezas não foram ouvidas. Olhei a janela... aaahhhhh minha doce e querida janela, finalmente me verei livre desse budum que tomou conta do recinto como se fosse invasão do MST em fazenda devoluta. Neste momento, trupiquei. Trupiquei no tapete fossilizado naquele quarto de hotel. Dei um duplo twist carpado invertido e minha boca encontrou diretamente a trava da janela. Meus dois centroavantes foram expulsos de campo. Por ironia do destino, o vestiário a que os dois foram se abrigar era o buraco do pino que destrava a janela. Só faltava estar cagado e a merda não ser minha, pois a janela não abria. Pensei nos conselhos do Dalai Lama falando que em momentos de crise dever-se-ia manter a calma. Ele fala isso porque nunca sentiu a flatulência dessa criatura, se sentisse com certeza se aposentava e deixava de ser budista!
Dois dentes a menos, janela fechada e o cheiro parecia piorar. Como minha futura ex-esposa podia ter me omitido por sete anos de namoro aquele cheiro? Eu nunca havia percebido nada. A podridão estava tomando conta do quarto, e a desgraçada nem se mexia na cama. Devia estar acostumada com isso, ou então, o cheiro anestesiava a mente deste diabo em forma de mulher. Tentei me recompor do estrago na boca. Olhei para a porta. Minha única salvação seria sair do quarto e ganhar o mundo, onde com certeza estaria livre, respirando uma brisa fresca e reconfortante do campo do centro de São Paulo. Fui em direção a mesma, já sonhando com o ar respirável do cheiroso Tietê e idealizando uma corrida até o centro, pronto para fugir para qualquer loja de perfume e abandonar a dita cuja permanentemente. Anular o casamento depois do ato consumado deve ser um tanto difícil, mas com certeza qualquer juiz iria entender minha situação, se por ventura viesse a sentir por 30 segundos o que eu senti. Corri para a porta. O metal pesado em forma de gás liberado pelo intestino de minha esposa inevitavelmente descolou o magnético do cartão que possivelmente abriria a porta. Estava preso, num território até então desconhecido para o meu olfato. Preso e desesperado, nem Buda poderia me tirar dessa situação. “Pelo banheiro é claro”, pensei eu, juntando minhas ultimas forças. Corri, corri como um atleta a busca do ouro olímpico. Ahhh, minha salvação estava por acontecer, nada como um basculante para fazer o ar fluir. Mas para minha tristeza o banheiro era movido a exaustor que por sua vez, o cheiro fez derreter o plástico das hélices. Entendi por que derreteu. Minha mulher poucas horas antes, havia feito um “filho” em formato de bumerangue, chamei-lo assim, pois mesmo dando a descarga, o bruto teimava em voltar. O cheiro do quarto misturou-se ao cheiro do banheiro. A merda estava feita literalmente. Engraçado como reparei que os papéis de parede começaram a desgrudar, estava eu tendo alucinações? Não sei, mas a situação parecia caótica.
Tudo que eu desejava neste dia lindo, era amanhecer ao lado da minha doce Gwineth, sentindo seu perfume angelical, um odor de rosas do campo colhidas pelas freiras mancas carmelitas do terceiro milênio. Porém, estou aqui preso em uma fortaleza, isolado do mundo real, sendo mantido prisioneiro deste urubu cujo intestino deveria ser motivo de estudo pela USP. O departamento de nutrição deveria analisar a dieta dela, pois, essa mulher só pode ter bebido um suco de Churume fresco. Acredito que ela poderia ganhar muito dinheiro produzindo bombas atômicas pro governo Uruguaio. Seja pelo gás letal ou pela mão-de-obra barata semi qualificada.
O custo de uma janela de hotel compensaria a minha liberdade dessa desgraça. Peguei então a cadeira de canto e me preparei para sentir a brisa fresca que viria após o estouro do vidro, já sabia, era um “Crash” depois um demorado “aaaaahhhhh”. Pensei em todo o roteiro a seguir: após quebrar o vidro, pediria socorro e poderia agüentar 3/4 do corpo pendurado até que os bombeiros viessem me salvar. Triste ilusão. Quando joguei a cadeira de encontro à janela, ela voltou diretamente ao encontro de minha canela, formando rapidamente um hematoma arroxeado com bordas acobreadas, lindo de morrer. Nesse momento me arrependi de ter sido retirado do estado comatoso em que me encontrei alguns anos atrás, achava que estava mal naquela época, agora acho que estaria numa boa, mundo estranho esse, um dia esta bem, outro esta mal, coisas da vida, não é?
O telefone na cabeceira, é claro, poderia ligar para a policia ambiental e dizer que mantenho em cativeiro um animal peçonhento:
- Recepção, booooooom diiiiiiaaaaaaaaa!!!...
- Recepçãããããããããooooo, pelo amor de Deus, meu quarto esta pegando fogo.
Eis que reconheço a voz estridente de Dona Clotilde, ex-faxineira de meu antigo emprego, a mesma do chá de folhas de Caqui silvestre que ocasionou minha desgraça no passado, história da qual só me orgulho o fato de estar em coma. Tempo bom aquele, não é?
- Seu Marcos Robeeeeeertoooo, há quanto tempo não falo contigo minino, lembra daquela vez que eu lhe atropelei? Ainda tenho o Chevette azul geladeira, acreditas? Mas me conta, como ta a vida?
- Socoooorroooooo mulher, meu quarto pegando fogo e você perguntando como esta minha vida?
- Mantenha a calma, mantenha a calma seu Marcos Roberto, o senhor sabe que como hoje é domingo estou sozinha aqui na recepção. Mas vou lhe ajudar, qual o seu quarto, por favoooooor?
- 804. Venha rápido, pelo amor de Deus.
- 804, 804... Huuuuummm... Ahhhhh então foi o senhor que casou com a Gwineth, moça bacana aquela ein, ein! Logo se vê seu bom gosto. Mas nunca achei que fosses conseguir arrumar mulher de novo, ainda mais casar depois daquela merda toda que aconteceu contigo. Por sinal, ela já sabe como você perdeu irresponsavelmente seu antigo emprego?
- Sua infeliz, meu quarto esta parecendo o inferno!
­- Nossa, que mau humor, por isso ela estava ruim ontem.
- Ruim? Como assim ruim? Do que estás falando, sua velha esclerosada?
- Pois é, ontem ela veio aqui com uma enxaqueca danada, dor na garganta, rins e olhos, foliculite, intestino preso, micose na virilha, cancro mole, gono(gonorréia), seborréia capilar, caspa generalizada, febre aftosa, bronquite asmática, frieira, gripe suína, além de unha encravada e caxumba recolhida. Como eu não posso receitar nenhum remédio, o senhor sabe muito bem disso, ofereci a ela o mesmo remédio caseiro que te fez melhorar na época que você estava entrevado no hospital, lembra? Dei a ela um galão de 5 litros do mais puro chá de folha de caqui silvestre, colhido pelas irmãs surdas do convento Beneditino da Angola pós-saxonica. Se isso não der um jeito nela, nada mais vai dar conta, não é mesmo seu Marcos Roberto?
- Nãããããããããão... Porque eeeeuuuuuu senhor?????
E o hotel pegou fogo (de verdade dessa vez).

FIM

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